12/01/2010

Letras Destacáveis, The Beatrice Letters

No início de cada capítulo do livro havia uma letra destacável. Foram Elas:
E-E-N-S-I-K-R-A-C-T-A-B

As letras ordenadas formaram duas sentenças que são uma espécie de legenda para as imagens de um pôster que acompanha o livro. Infelizmente as imagens não cabem no scaner, tiveram que ser fotografadas.

1. Snicket Brae (Algo como montanha Snicket).



2. Beatrice Sank (Beatrice Afundou).

Tradução do The Beatrice Letters, Carta nº 13

Finalmente chegamos ao fim do livro. Receio que a tradução tenha ficado um pouco confusa, pois "letters" pode significar tanto "cartas" como "letras",e Lemony adora fazer de tudo para nos deixar confusos. "Aqui o Mundo é Sereno".
V.


Hoje
Ao meu amado editor,

     Como você sabe, não é fácil invadir um depósito. Ninguém sabe se o dono do depósito colocou a placa "Cuidado com o Cão" só para amedrontar os rondadores, ou se realmente há um cão violento por perto, ou se "Cão" é apenas o apelido do dono, e é muito desconsertado concluir que você deve levar bifes marinados com sonífero quando, na verdade, deveria ter levado um par de pernas-de-pau, ou vice-versa. Uma vez dentro do depósito, deve-se manter a esperança de que ele tenha sido sensivelmente organizado - caso contrário levará toda a noite para encontrar o local onde estão armazenados documentos a muito tempo exibidos em bibliotecas, e toda a manhã para achar o arquivo. Procurei em "Poesia organizada". Procurei em "Organizada, poesia". Procurei em "Sonetos por atores e atrizes". Procurei em "Atores e atrizes, sonetos por". Procurei em "Poemas de quatorze linhas". Procurei em "Exibições teatrais". Procurei em "Poemas que envolvem teatro". Procurei em "Drama". Procurei em "Melodrama". E também procurei  debaixo do assoalho.
     Finalmente, me ocorreu olhar no nome do poeta. Isso é algo que eu devia ter percebido muito mais cedo, mas algumas coisas mais simples da vida são muito difíceis de se imaginar. Porque eu a amava tanto, por um instante, nunca ocorreu a mim que pudesse haver mais de uma Beatrice Baudelaire. Algum tempo antes de eu receber a primeira carta de Beatrice Baudelaire percebi que todas as cartas de Beatrice Baudelaire poderiam se encontrar não só em "primeira Beatrice Baudelaire" como também em "segunda Beatrice Baudelaire" (aqui ele se refere ao arquivo). E, talvez, se eu juntasse as cartas que restavam da primeira Beatrice Baudelaire com as primeiras cartas da outra Beatrice Baudelaire, então as Cartas de Beatrice poderiam explicar as cartas (ou letras) de Beatrice, e até mesmo cartas para Beatrice, não importa que cartas (ou letras) são elas e nem em que ordem estão. Imediatamente comecei a trabalhar no arquivo.
     E agora, depois de todo esse tempo, encontrei o mesmo pedaço de papel que havia examinado uma vez em uma caixa de vidro - e, anos antes disso, em um corredor da biblioteca, com o pedaço de papel na tal caixa de vidro. Infelizmente, esse soneto perdido é como uma meia perdida - e que estava perdido há tando tempo que todas outras coisas tinham se desvendado completamente em sua ausência. Por muitos anos  pensei que se eu coletasse todas estas cartas e seus anexos, - uma frase que aqui significa "documentos e artigos que temi que desaparecessem, e que logo podem desaparecer novamente" - poderia ordená-las, como quando se resolve um anagrama ao por as letras na ordem certa. Mas letras não são cartas, de modo que ordenar cartas não é tão simples quanto ordenar letras e, mesmo se fosse, a ordem das cartas poderia significar mais de uma coisa, do mesmo modo como há mais de uma Beatrice. E, assim, o mistério poderia converter-se em dois mistérios, e cada um destes novos mistérios poderiam se duplicar, até que o mundo inteiro estivesse afundado neles, como é agora. Não importa quais documentos investigue e quais objetos  recupere: talvez você nunca responda às questões que são muito importantes para você. Porém, cedo ou tarde você tem que terminar qualquer arquivo que começou.
     Este arquivo terminou - logo quando pensei que poderia ser meu fim. Não posso mais olhar para estes documentos ou correr as minhas mãos ao longo da tinta, porque meus olhos estão cheios de lágrimas e meus dedos estão manchando e cortando o papel. Os segredos contidos aqui são como todos os segredos - perigosos aos que os descobrem e inofensivos aos que não os notam. Por esta razão, eu recomendo que você destrua esse arquivo ou faça tantas cópias quanto possível.
    Não sei quando escreverei para você novamente. Não ouso sequer escrever minhas iniciais no fundo desta carta, quando tantas cartas têm sido perdidas. Pode parecer estranho, mas ainda espero pelo melhor, embora o melhor, assim como uma correspondência interessante, raramente chega ao seu destino, principalmente quando tal correspondência pode ser perdida tão facilmente.

Respeitosamente,


Meu Nó Silencioso
Um poema sobre uma peça sobre a história de duas pessoas que
Escrito pela pessoa na história (na peça e no poema) que


Meu nó silencioso está amarrado em meu cabelo.
Como se para manter meu amor longe de meus olhos.
Não posso falar com o alguém por quem tenho zelo.
Um alfinete de chapéu é parte do meu disfarce.

Na peça, meu papel é uma Baticeer,
Uma palavra que aqui significa "pessoa que treina morcego".
A plateia pode sentir uma pontada de medo,
Como se afiados alfinetes estivessem ocultos em seus chapéus.

Meu coadjuvante vive no que chamamos de Brae.
Sua solidão pode não ser apenas um ato.
Uma correspondência falta chegar um dia.
Este melodrama é baseado no fato.

A cortina cai como o nó que desamarra,
O silencio é quebrado por aquele que morre.


Fim

07/01/2010

S. para V.

Relatório
Reunião do dia 06/01
V.: "Mas porque exatamente estamos fazendo isso?"
Todos: "idem, idem,idem"
V.: "Vamos inciar mais uma reunião. Como todos devem ter notado, um de nossos objetivos está quase cumprido. Falta apenas uma carta para . . ."
S.: "?"
R.: "?"

23/12/2009

Tradução do The Beatrice Letters, Carta nº 12

BEATRICE BAUDELAIRE
Baticeer Extraordinária
Edifício Retórico, 14º andar

Horário do coquetel

Desculpe-me por lhe deixar envergonhado na frente dos seus amigos. Eu só queria falar com você. O garçom concordou em trazer este cartão junto com a sua bebida. Se não quiser me encontrar, rasgue isto  quando terminar sua root beer float. Eu partirei, e nunca mais tentarei lhe contatar novamente. Mas, se você quiser me conhecer, sou a garota de dez anos no canto da mesa.

B.


Nota: Esta ilustração não tem no livro, achei na internet.

Tradução do The Beatrice Letters, carta nº 11


Telegrama Noturno
RECEBIDO DE: LS PARA BB

NÃO ENTREGAR: FIM DE VERÃO

QURIDA SENHORA BAUDELAIRE,

  NÃO TENHO COMO SABER SE ESTE TELEGRAMA CHEGARÁ ATÉ VOCÊ, POIS A DISTÂNCIA ENTRE NÓS É MUITO GRANDE E DIFICULTOSA PONTO ESTE TELEGRAMA TEM QUE VIAJAR POR FIOS QUE PODEM SER CORTADOS, QUEIMADOS, ENFERRUJADOS, SUBMERGIDOS, OU CASO CONTRÁRIO SABOTADOS -- TÃO CORTADO, ENFERRUJADO, SUBMERGIDO, OU CASO CONTRÁRIO SABOTADO QUANTO O MUNDO EM QUE VIVEMOS PONTO
  ENTENDO QUE VOCÊ E SEU MARIDO ESTÃO VIVOS, E RUMORES DE SUA GRAVIDEZ CHEGARAM ATÉ MIM PONTO EU ESPERO QUE VOCÊ TENHA UMA BEBÊ SAUDÁVEL --     UMA MENINA COM TODA A SUA INTELIGÊNCIA, CHARME, DESENVOLTURA E BELAS FEIÇÕES, QUE PASSARÁ ALGUNS DIAS E HORAS FELIZES SÓ COM ALGUÉM QUE ELA AMA, ENCIMA DE MONTANHAS ONDE AS PESSOAS DE IMAGINAÇÃO E INTELIGÊNCIA AINDA PODEM SE JUNTAR, DA MESMA MANEIRA COMO NÓS FIZEMOS MUITO TEMPO ATRÁS PONTO SE NÃO, EU ESPERO QUE VOCÊ TENHA UM BEBÊ SAUDÁVEL, OU TALVEZ GÊMEOS PONTO
  PERDOE-ME POR LHE CONTATAR UMA ULTIMA VEZ PONTO AFINAL DE CONTAS,  SEI COMO ISTO É PERIGOSO NESTES ANOS, MAS HÁ ALGO QUE VOCÊ TEM QUE SABER PONTO É ALGO TÃO PERIGOSO QUE EU ESTOU BATENDO O CÓDIGO MORSE NESTE DISPOSITIVO TELÉGRAFO O MAIS FORTE QUE POSSO, ASSIM A MENSAGEM SERÁ IMPRESSA EM TAMANHO GRANDE PONTO EU SÓ POSSO REZAR PARA QUE O TAMANHO DA MENSAGEM NÃO QUEBRE O DISPOSITIVO E PARE A TRANSMISSÃO PONTO EU SÓ POSSO ESPERAR PELO MELHOR, DA MESMA MANEIRA COMO VOCÊ ESPEROU, TANTOS ANOS ATRÁS, PARA UM MORCEGO OBEDECER SUAS ORDENS PONTO
  A MENSAGEM É COMO SEGUE:
UM

14/12/2009

Tradução do The Beatrice Letters, Carta nº 10

BEATRICE BAUDELAIRE

Na metade do caminho, apesar dos dias de temor
Querido senhor,

     Se você está em seu escritório --- e tenho esperança que esteja, porque posso ouvir alguém abaixo de mim pelo rangido do assoalho--- poderia simplesmente passar pela porta, atravessar o corredor rumo à escadaria a leste, subir depressa os degraus, atravessar o outro corredor e bater diretamente na porta do escritório acima do seu. Me encontrarias aqui, datilografando em minha máquina de escrever. Mas você não vem.
     Em primeiro lugar, você não tem um bom senso de direção e não poderá saber em que ponto é o leste. Segundo, você claramente não quer falar comigo.
Violet me falou uma vez que eu salvei a vida dela, e Klaus reivindicou que sem mim ele teria perecido em desespero depois da destruição do Hotel Desenlace. Até mesmo Sunny disse que não poderia ter sobrevivido sem mim. Mas não preciso lhe falar o quão valentes e diligentes, o quão leais e lidas são essas três pessoas. É que eu estaria perdida sem eles. Sem o trabalho de emergência de Violet, eu nunca teria achado um modo de ir até a cidade procurar por você. Sem as anotações de Klaus quando eu estava escalando a montanha, eu nunca teria deixado a cidade para procurar por você novamente. Sem o extenso conhecimento culinário de Sunny de fazer bolinhos de flores silvestres e ervas daninhas, eu nunca teria encontrado a força para retornar mais uma vez, primeiro por iaque, então a pé, e depois de iaque e a pé, dando voltas atrás da cidade na esperança de finalmente conhecê-lo cara-a-cara. E sem as histórias que os três irmãos me contaram sobre suas dificuldades --- as quais, em alguns casos, diferem bastante dos seus  relatos --- eu nunca teria achado a escola de secretários, onde escrevi a minha carta anterior a você. Aquilo não é uma escola de secretários, é claro --- não realmente --- mas tive que me sentar por aquela carta empresarial tediosa que escrevi na classe para eles acreditarem no nome que eu dei ao vice diretor em minha chegada.
    Sem Violet, Klaus e Sunny eu nunca teria continuado meus estudos com os poucos voluntários que restaram, e me tornado a baticeer que sou hoje. Devo a minha vida a eles, e agora nós estamos separados, e não descansarei até os achar novamente.
     Eu me estabeleci aqui, no escritório acima do seu. Em alguns momentos perfurei um pequeno buraco no chão com a ferramenta de metal pontiaguda que minha última instrutora me deu, antes que ela mesma tivesse que ir para as colinas à procura de outros órfãos e escapar de outros inimigos. Você mesmo deve ter um item semelhante --- na verdade todos nós, esperançosamente, ganhamos um ou dois itens úteis antes que nossos instrutores desapareçam e nos deixem sozinhos no mundo. Vou colocar este pedaço de papel em um tubo minúsculo e deixar que ele caia de minhas mãos pelo buraco. De acordo com meus cálculos, ele deve passar fora das lâminas do ventilador de teto e se abrir no ar, caindo suavemente sobre a superfície da sua escrivaninha como um morcego depois de uma longa noite de caçadas.
     Por favor me contate a qualquer hora, dia ou noite, de preferência de dia. Não posso imaginar porque alguém tão nobre quanto você --- assumindo, mais uma vez, que você é o homem que eu penso que é --- não conheça alguém que quer tanto falar com você. Por favor senhor, eu lhe imploro que simplesmente passe pela porta, atravesse o corredor rumo à escadaria a leste, suba depressa os degraus e bata diretamente na porta do escritório acima do seu, e desate o "My silence knot" (meu nó silencioso).

Beatrice Baudelaire.

A Ferramenta de Metal

12/12/2009

Tradução do The Beatrice Letters, carta nº 9

Peço desculpas a você, S., por ter demorado de traduzir esta carta. Mas ela é enorme e tediosa, o que além de contribuir para a demora contribuiu para uma soneca com o dicionário como travesseiro. Talvez M. queira entrar na nossa sociedade. O convite já foi entregue.
Abraços,
V.


Ao anoitecer

Minha queridíssima,

Recebi todas as 200 páginas do seu livro que explica porque você não pode se casar comigo, e dei tantas sementes quanto os pombos-correios puderam comer. E lavei suas penas com meu dedos trêmulos, e seus bicos com minhas lágrimas. Tive que ler o livro três vezes e meia antes de poder desatar “Meu Nó Silencioso” e te escrever.

Anexado há um cacho de cabelo, o qual estou te devolvendo, assim como você devolveu o item que coloquei em seu dedo naquela noite, enquanto os garçons colocavam as cadeiras em cima das mesas para sinalizar que o café estava fechado, e esperavam impacientemente que nós terminássemos nossa última porção de fermento comprimido, açúcar, sassafras, hops, fruto de junípero, raiz de dente-de-leão, wintergreen (uma fruta, mas que não achei tradução), água gaseificada e sorvete de baunilha. A carta de 200 páginas partiu meu coração, mas este ficou completamente arrasado assim que vi o anel. Você tem consciência de que este anel pertenceu a querida falecida mãe de R.? Você deveria ter reconhecido o “R” gravado no centro. Eu estou certo de que ela teria gostado que você ficasse com ele, mesmo que o seu interesse em se casar comigo tenha mudado, graças ao nosso colega Co...

Não vou manchar esta carta com o nome dele. A mais brilhante das estrelas é incapaz de brilhar através de uma nuvem de fumaça preta, e O. é a nuvem mais preta que já vi em nosso céu. Um dia, o mundo saberá de sua traição e seus enganos, de seus crimes e sua higiene, mas isso está muito longe para nós. Anel, cabelo, cartas, fotografias – todos os traços do nosso amor serão espalhados, como um dos anagramas de uma das nossas lições de códigos.

Resumidamente, tentarei responder as treze perguntas que você me fez na pág. 189. Após ler seu livro, eu entendi porque não podes viver comigo. Espero que após ler as respostas a seguir você possa entender porque não posso viver sem você.

Pergunta Um: Não.
Pergunta Dois: Claro que lembro. Você entrou naquela sala enorme de madeira verde. Estava adiantada para a nossa primeira aula, assim como eu. Sempre achei, antes mesmo de me ser ensinado, que ser pontual é um dos sinais de uma pessoa nobre, e te envergonhei dizendo isso na frente de R., de B. e dos outros.
Pergunta Três: Absolutamente não.
Pergunta Quatro: Não, acho que não. Me lembro da performance, é claro, e da sua fantasia esplêndida, e do palito de fósforo que você colocou no chão. Lembro-me da discussão que tive com Eleanora Poe na manhã seguinte, quando eu estava mais de uma hora atrasado para fazer minha resenha teatral, mas não me lembro de nada sobre a programação teatral. Se eu recebi uma programação, não me lembro de ver um poema. Se eu vi um poema, não me lembro de tê-lo lido e, se eu o li, não me lembro de tê-lo relido. E se o reli, não me lembro de ter me confundido ou continuado a me confundir. Resumindo, estou confuso.
Pergunta Cinco: Três Crianças.
Pergunta Seis: “Um homem que mora nas montanhas.”
Pergunta Sete: “Um homem ou uma mulher que treina morcegos.”
Pergunta Oito: “A mistura de letras em uma palavra, nome ou frase que forma uma nova palavra ou frase.”
Pergunta Nove: Sempre. Continuamente. Com crescente apreensão, ou decrescente esperança. Te amarei desconsiderando os atos de nossos inimigos e a desconfiança dos atores. Te amarei desconsiderando a revolta de alguns pais e o tédio de certos amigos. Te amarei não importa o que é servido nos cafés do mundo, ou que jogo é jogado em todo e qualquer intervalo. Te amarei não importa o número de treinamentos de incêndios que teremos que suportar, e desconsiderando o que estiver desenhado em giz no quadro negro. Te amarei não importa o número de erros cometidos por mim enquanto tento simplificar frações matemáticas, e sem me importar com o quão difícil é decorar a tabela periódica. Te amarei não importa qual era a combinação de sua caixa, e como você decidiu gastar seu tempo durante o intervalo das aulas. Te amarei não importa o desempenho do time de futebol no torneio, ou quantas manchas eu tenha recebido no meu uniforme de líder de torcida. Te amarei se eu nunca mais te ver, e te amarei se eu te ver todas as terças. Te amarei se você cortar seu cabelo, e te amarei se você cortar o cabelo dos outros. Te amarei se você abandonar seu “baticeering”, e te amarei se você se aposentar do teatro para ter alguma outra ocupação menos perigosa. Eu te amarei se você deixar sua capa de chuva cair no chão ao invés de pendurá-la, e te amarei se você trair seu pai. Vou te amar até mesmo se você falar que a poesia de Edgar Guest é a melhor do mundo, e mesmo que você fale que o trabalho de Zilpha Katley Snyder é incrivelmente tedioso. Vou te amar se você abandonar o theremin (Theremin é um instrumento musical que não precisa de contato manual para produzir música) e escolher a gaita, e te amarei se você doar seus micos ao zoológico e suas rãs-árvore para M. Eu te amarei como a estrela-do-mar ama o recife de corais, e como as trepadeiras amam as árvores, até mesmo se os oceanos virarem poeira e as árvores caírem na floresta sem que ninguém as ouça. Te amarei como o molho pesto ama o macarrão fetuccini, como a raiz de cavalo ama a província do Miyagi, como a Tempura ama o Ikura e o queijo Pepperoni ama a pizza. Te amarei como o manati (ou peixe boi) ama a cabeça da alface e como as manchas escuras amam os leopardos, como as sanguessugas amam o tornozelo de uma ave perneta e como um cadáver ama o bico do urubu. Te amarei como o médico ama seu paciente mais grave, e como um lago ama os nadadores sedentos. Te amarei como a barba ama o queixo, e as migalhas amam a barba, e o guardanapo umedecido ama as migalhas, e os documentos preciosos amam a umidade, e o olho piscante do leitor ama a impressão manchada do documento, e as lágrimas de tristeza amam o olho a piscar, fazendo o leitor interpretar mal o que está escrito. Te amarei como o iceberg ama o navio, e os passageiros amam o bote salva-vidas, e o bote salva-vidas ama os dentes da baleia, e a baleia ama o sabor dos uniformes navais. Te amarei como uma criança ama ouvir a conversa dos seus pais, e os pais amam o som de suas próprias vozes discutindo, e como a caneta ama escrever todas as palavras destas vozes em um caderno. Eu te amarei como uma telha ama cair de uma casa num dia de ventania e golpear o queixo de uma pessoa irritante, e como um forno ama dar defeito enquanto está assando um peru. Te amarei como um avião ama cair do céu azul claro e como uma escada rolante ama emaranhar lenços caros em seus mecanismos. Te amarei como a toalha de papel molhada ama ser amassada em uma bola e lançada em um teto de banheiro, e  como uma borracha ama deixar pó no penteado de pessoas que falam muito. Te amarei como uma abotoadura ama cair de sua camisa e explorar a festa por si só e como um par de luvas brancas ama passar despercebido delicadamente sobre o ponche. Te amarei como um táxi ama a lama e como uma biblioteca ama o tic-tac paciente de um relógio. Te amarei como um ladrão ama uma galeria, e como um corvo ama um assassinato, como uma nuvem ama morcegos e uma cadeia ama montanhas. Te amarei como a desgraça ama os órfãos, como o fogo ama os inocentes e como a justiça ama sentar e assistir enquanto tudo vai mal. Te amarei como um campo de batalha ama homens jovens, e como a menta ama sua alergia, e te amarei como a casca de banana ama o sapato de um homem que acaba de ser golpeado por uma telha que cai de uma casa. Te amarei como uma Corporação pelo Salvamento das Chamas ama entrar às pressas em edifícios em chamas, e como os edifícios em chamas amam persegui-los afora, e como o paraquedas ama deixar um balão, e como o operador de balões ama persegui-lo logo após. Te amarei como um punhal ama uma pessoa por trás, e como um certo empregado de um estabelecimento de limpeza a seco ama ficar acordado até tarde com um par de binóculos, vigiando uma fábrica de punhais na esperança de pegar um assaltante, e como uma assaltante ama se mover furtivamente atrás de pessoas com binóculos, enquanto se dá conta de repente que deixou o punhal dela em casa. Eu te amarei como uma gaveta ama um compartimento secreto, e um compartimento secreto ama um segredo, e como um segredo ama fazer uma pessoa ofegar, e como uma pessoa ofegante ama um copo de conhaque para acalmar os nervos, e como um copo de conhaque ama se quebrar no chão, e como o barulho de um copo a quebrar ama fazer outra pessoa ofegar, e como outra pessoa ofegando ama uma escrivaninha por perto para se apoiar, e apoiando-se na escrivaninha aperta uma alavanca que ama abrir uma gaveta que revela um compartimento secreto. Te amarei até que todo compartimento semelhante seja descoberto e aberto, e até todos os segredos ofegarem o mundo. Te amarei até que todos os códigos e corações estejam quebrados e até que todos os anagramas sejam ordenados. Te amarei até que todo incêndio seja extinguido e até que toda casa seja reconstruída mais bela e cheia de bosques, e até que todo criminoso seja algemado pelo policial mais preguiçoso. Te amarei até que M. comece a odiar cobras e J. comece a detestar gramática, e te amarei até que C. perceba que S. não é merecedor do seu amor e N. perceba que ele não merece V. Eu te amarei até que os passarinhos odeiem os ninhos, e as lagartas odeiem a maçã, e até que a maçã odeie a árvore e a árvore odeie o ninho, e até que o pássaro odeie a árvore e a maçã odeie o ninho, embora eu não posso imaginar que a última ocorra, não importa de que maneira eu tente. Te amarei à medida que nós envelhecermos, o que há pouco aconteceu, e aconteceu novamente, e aconteceu vários dias atrás, continuamente, e vários anos antes disso, e continuará acontecendo enquanto os ponteiros dos relógios girarem e as páginas dos calendários marcarem a passagem do tempo, exceto os relógios que as pessoas têm perdido e os calendários que as pessoas esqueceram de colocar um uma área visível. Te amarei à medida que nós nos acharmos cada vez mais e mais longe um do outro. Te amarei até que as chances de nos colidirmos um com o outro passe de poucas para zero, e até que sua face enevoada se distancie da minha memória. Te amarei não importa onde você for e quem você vê, não importa os lugares que você evita e quem você não vê, e não importa quem lhe vê evitando os lugares. Te amarei não importa o que lhe acontece, e não importa como descubro o que acontece a você, nem o que acontece a mim quando descubro, e nem como sou descoberto depois que o que acontece a mim acontecer a mim quando estou descobrindo o que acontece a você. Te amarei se você não se casar comigo. Te amarei se você casar com outra pessoa: seu coadjuvante, talvez, ou Y., ou até mesmo O., ou algum Z. por causa de A., ou mesmo R. --- embora eu acredite que isto será algum tempo antes de ser permitido o casamento entre duas mulheres--- e  te amarei se você tiver uma criança, e se você tiver duas crianças, ou três, ou até mais, embora eu pessoalmente pense que três é o bastante, e te amarei se você nunca se casar e nunca tiver uma criança, e passar seus anos desejando ter se casado comigo afinal de contas, e eu tenho que dizer que eu prefiro este enredo que todos os outros que mencionei. Que, Beatrice, é como eu te amarei até mesmo quando o mundo for caminhando para o mal.
Pergunta dez: Não.
Pergunta onze: Tudo. A carta pode estar codificada e uma palavra pode estar codificada. A performance teatral pode estar codificada, e há tempos que parece que o mundo inteiro está em código. Alguns acreditam que o mundo pode ser decodificado lendo um jornal. Mas no meu caso, a única coisa que fazia sentido no mundo era você, e sem você o mundo parecerá tão falsificado e trágico quanto uma máquina de escrever com defeito9.
Pergunta doze: veja a resposta da questão cinco. Kit, Jacques e eu.
Pergunta treze: "Sinto muito, eu não posso responder esta pergunta". Sinto sua falta. Quem sabe quando verei você?
P.S.: Você está certa de que seu coadjuvante é mesmo um de nós?
Lemony Snicket

O Cacho de Cabelo

Nota1: A mensagem do P.S. estava em código Sebald, mas pelos motivos de que já lhe falei (ring em inglês pode significar tanto anel como o toque de um sino, e na carta significava os dois) não pude deixar a carta em código.
Nota2: a palavra defeito9 estava no livro com o nove mesmo. Não foi um erro. Da mesma maneira, a resposta da questão treze estava realmente em aspas.

28/11/2009

Tradução do The Beatrice Letters, Carta nº 8

BEATRICE BAUDELAIRE

A

Véspera do Dia da Vitória
Caro Sr.,

     Escrevo para maiores informações sobre o problema que discutimos previamente este ano. Estou na minha Aula de Escrita de Cartas de Negócios, que é ensinada por um homem de pé chato tão triste e “sem-noção” que ele certamente me dará um A neste trabalho sem ler nada, a não ser a primeira frase de cada parágrafo. Eu poderia dizer qualquer coisa aqui. Por exemplo: “Baticeer” é uma pessoa que treina morcegos. Aprendi isso em um poema que vi você ler.
     Após cuidadosa consideração, estou feliz em anexar a seguinte informação. Era eu, batendo a na porta do seu escritório ontem à noite. Eu sei que você estava lá, porque lhe segui da biblioteca, onde você ficou por quase uma hora observando uma caixa de vidro que continha velhos documentos que estavam sendo exibidos na exposição “Poesia Teatral: Sonetos por Atores e Atrizes”. Depois, você sentou em um banco no parque, examinando um anel colocado numa superfície de madeira por alguém, cuidadoso como se fosse de vidro, antes de passear pelas margens de um lago próximo, antes de repentinamente fazer uma corrida louca até o Doldrum Drive, onde um ônibus estava quase saindo. Você pegou o ônibus, enquanto eu parava um carro para te seguir pelas ruas cansativas do bairro entediante no qual o seu deprimente edifício se encontra. Enquanto eu tentava forçar a fechadura da porta da frente, você já estava muitos andares acima de mim, mas eu pude ouvir você respirando por causa da subida assim que alcancei sua porta. Porque você não respondeu? Porque você não responde nenhuma das minhas perguntas? Eu preciso ter pelo menos 12 delas respondidas.
     Enfim, por favor não hesite em me contatar o quão cedo for conveniente para o senhor. Uma única carta pode mudar tudo. Os três Baudelaires podem ter ido há muito tempo, mas há uma quarta Baudelaire aqui, esperando que você possa desatar o “Meu Nó Silencioso” e me ajudar a encontrar o fim de uma história que começou com você – na mesma sala onde estou agora, prestes a entregar esta carta ao meu instrutor de escrita de cartas de negócios para que ele possa dar a nota e colocá-la no correio.

Sua, em negócios,
Beatrice Baudelaire.

19/10/2009

Tradução do The Beatrice Letters carta nº 7

Beatrice,
Esta carta foi erroneamente entregue a mim. Claramente, os gatos precisam de mais treino! Espero que você esteja bem. R.


LEMONY SNICKET

2 semanas após minha última carta
Minha querida Beatrice,

    Repórteres estão vindo de toda parte de Tedia até Paltryville, pois as performances de “My Silence Knot” (meu nó silencioso) estão esplêndidas e sua performance como “Baticeer” foi a melhor do show, superando até a performance do homem-das-montanhas. Mais importante, repórteres estão vindo de toda parte de T até P., pois você reuniu quase todas as evidências que nós precisamos. Permita-me parabenizar você e seu coadjuvante pela performance na excursão.
    Mas devo admitir que sinto terrivelmente sua falta. O mundo é muito quieto sem você por perto. Vou dormir cedo e acordo tarde, e sinto como se mal tivesse dormido, provavelmente porque tenho lido quase todo o tempo. Me arrasto para minha mesa todas as manhãs, mas não consigo nem mesmo argumentar com E. ou com G., e à tarde não consigo me lembrar de chamar L. de “O.” ou de chamar O. de “L.”, e à noite eu jogo cartas, mas minha mente nunca está no jogo e sim em você, então R. tem ganhado grande parte da minha coleção de canetas. Com você longe é como se todas as letras da minha vida estivessem misturadas num anagrama, e eu não serei capaz de colocá-las em ordem até que você volte. Nunca mais quero me separar de você, Beatrice, exceto quando for ao banheiro, no trabalho, e quando um de nós quiser ver um filme que o outro não queira ver.
    Fiz uma reserva no nosso lugar usual para uma “root beer floats” depois da sua performance de chegada. Há algo que quero muito te perguntar, mas não perguntarei isso numa carta – particularmente uma carta que vou tentar entregar à noite, por meio de um roedor voador. Enquanto isso, incluí alguns sonetos que escrevi sobre as noites que passamos juntos.
Sinto sua falta. Vejo você em algumas semanas.

LEMONY SNICKET

Tradução do The Beatrice Letters carta nº 6

4 horas da tarde
Querido Sr,

     Finalmente te encontrei – mas você não está aqui. Os pastores me contaram que um homem com as mesmas características que você (altura média, não careca, totalmente vestido e com as iniciais L.S.) morou nas montanhas por alguns meses como um “homem-brae’’, umas frase que aqui significa “um homem que mora nas montanhas”. Eles disseram que você raramente se aventurava a sair de uma pequena caverna – “como se estivesse esperando por alguém,” disse o mais velho dos pastores, enquanto tocava seu sino para chamar as ovelhas e me olhava muito cuidadosamente nos olhos. Eu troquei um anel que estava usando, gravado com a inicial de uma pessoa que eu acho que você conheceu, por uma visita à caverna. Não sei o que terei para negociar em troca de ter esta carta enviada.
     Sua caverna é um lugar miseravelmente sem corrente de ar, infestada de morcegos e decorada com um papel de parede horroroso. Seja lá o que for que você tenha trazido aqui, levou consigo quando partiu – a única coisa que achei aqui foi esse pedaço de papel no qual estou escrevendo esta carta. No fim da folha há uma única letra, a qual me informaram ser sua caligrafia/letra – outra letra para a minha coleção, incluindo as letras das suas iniciais, as cartas que encontrei no seu escritório, e as cartas que te escrevo, sempre sem saber se você as recebe.
     Esta tem sido uma longa e difícil jornada. Exceto pela baleia, tenho viajado sozinha e, agora, depois de seguir o caminho que você deixou para mim em seu escritório – se aquele for mesmo o seu escritório, e se você tiver deixado aquele caminho mesmo para mim, e se você for quem acho que é – tudo o que consegui ficar sabendo foi o que você disse quando deixou esta caverna numa Quarta-Feira à noite, assim que a estação da chuva de granizo começou.
     “Estou pronto para uma ‘root beer float”, foi o que você disse, e eu estou também. Eu voltarei para a cidade, onde me disseram que fazem as melhores “root beer floats” numa certa loja, embora eu tenha esquecido o nome, a localização e a lista de preços da loja em questão. E é por isso que é tão importante pra mim que eu encontre minha família. Com o tempo, muitas memórias desaparecem. Violet amarrando seu cabelo em uma fita para mantê-lo longe dos olhos, Klaus lendo um livro através de seus óculos, Sunny aparecendo na rádio para discutir suas receitas – não quero que essas sejam minhas únicas lembranças das três pessoas mais importantes da minha vida. Por favor, senhor, contate-me a qualquer hora, dia ou noite, enquanto sigo meu caminho para onde, eu espero, o senhor está se deliciando com um refresco.

Beatrice Baudelaire.
K

Se não há nada lá fora, o que foi aquele Barulho?

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