12/12/2009

Tradução do The Beatrice Letters, carta nº 9

Peço desculpas a você, S., por ter demorado de traduzir esta carta. Mas ela é enorme e tediosa, o que além de contribuir para a demora contribuiu para uma soneca com o dicionário como travesseiro. Talvez M. queira entrar na nossa sociedade. O convite já foi entregue.
Abraços,
V.


Ao anoitecer

Minha queridíssima,

Recebi todas as 200 páginas do seu livro que explica porque você não pode se casar comigo, e dei tantas sementes quanto os pombos-correios puderam comer. E lavei suas penas com meu dedos trêmulos, e seus bicos com minhas lágrimas. Tive que ler o livro três vezes e meia antes de poder desatar “Meu Nó Silencioso” e te escrever.

Anexado há um cacho de cabelo, o qual estou te devolvendo, assim como você devolveu o item que coloquei em seu dedo naquela noite, enquanto os garçons colocavam as cadeiras em cima das mesas para sinalizar que o café estava fechado, e esperavam impacientemente que nós terminássemos nossa última porção de fermento comprimido, açúcar, sassafras, hops, fruto de junípero, raiz de dente-de-leão, wintergreen (uma fruta, mas que não achei tradução), água gaseificada e sorvete de baunilha. A carta de 200 páginas partiu meu coração, mas este ficou completamente arrasado assim que vi o anel. Você tem consciência de que este anel pertenceu a querida falecida mãe de R.? Você deveria ter reconhecido o “R” gravado no centro. Eu estou certo de que ela teria gostado que você ficasse com ele, mesmo que o seu interesse em se casar comigo tenha mudado, graças ao nosso colega Co...

Não vou manchar esta carta com o nome dele. A mais brilhante das estrelas é incapaz de brilhar através de uma nuvem de fumaça preta, e O. é a nuvem mais preta que já vi em nosso céu. Um dia, o mundo saberá de sua traição e seus enganos, de seus crimes e sua higiene, mas isso está muito longe para nós. Anel, cabelo, cartas, fotografias – todos os traços do nosso amor serão espalhados, como um dos anagramas de uma das nossas lições de códigos.

Resumidamente, tentarei responder as treze perguntas que você me fez na pág. 189. Após ler seu livro, eu entendi porque não podes viver comigo. Espero que após ler as respostas a seguir você possa entender porque não posso viver sem você.

Pergunta Um: Não.
Pergunta Dois: Claro que lembro. Você entrou naquela sala enorme de madeira verde. Estava adiantada para a nossa primeira aula, assim como eu. Sempre achei, antes mesmo de me ser ensinado, que ser pontual é um dos sinais de uma pessoa nobre, e te envergonhei dizendo isso na frente de R., de B. e dos outros.
Pergunta Três: Absolutamente não.
Pergunta Quatro: Não, acho que não. Me lembro da performance, é claro, e da sua fantasia esplêndida, e do palito de fósforo que você colocou no chão. Lembro-me da discussão que tive com Eleanora Poe na manhã seguinte, quando eu estava mais de uma hora atrasado para fazer minha resenha teatral, mas não me lembro de nada sobre a programação teatral. Se eu recebi uma programação, não me lembro de ver um poema. Se eu vi um poema, não me lembro de tê-lo lido e, se eu o li, não me lembro de tê-lo relido. E se o reli, não me lembro de ter me confundido ou continuado a me confundir. Resumindo, estou confuso.
Pergunta Cinco: Três Crianças.
Pergunta Seis: “Um homem que mora nas montanhas.”
Pergunta Sete: “Um homem ou uma mulher que treina morcegos.”
Pergunta Oito: “A mistura de letras em uma palavra, nome ou frase que forma uma nova palavra ou frase.”
Pergunta Nove: Sempre. Continuamente. Com crescente apreensão, ou decrescente esperança. Te amarei desconsiderando os atos de nossos inimigos e a desconfiança dos atores. Te amarei desconsiderando a revolta de alguns pais e o tédio de certos amigos. Te amarei não importa o que é servido nos cafés do mundo, ou que jogo é jogado em todo e qualquer intervalo. Te amarei não importa o número de treinamentos de incêndios que teremos que suportar, e desconsiderando o que estiver desenhado em giz no quadro negro. Te amarei não importa o número de erros cometidos por mim enquanto tento simplificar frações matemáticas, e sem me importar com o quão difícil é decorar a tabela periódica. Te amarei não importa qual era a combinação de sua caixa, e como você decidiu gastar seu tempo durante o intervalo das aulas. Te amarei não importa o desempenho do time de futebol no torneio, ou quantas manchas eu tenha recebido no meu uniforme de líder de torcida. Te amarei se eu nunca mais te ver, e te amarei se eu te ver todas as terças. Te amarei se você cortar seu cabelo, e te amarei se você cortar o cabelo dos outros. Te amarei se você abandonar seu “baticeering”, e te amarei se você se aposentar do teatro para ter alguma outra ocupação menos perigosa. Eu te amarei se você deixar sua capa de chuva cair no chão ao invés de pendurá-la, e te amarei se você trair seu pai. Vou te amar até mesmo se você falar que a poesia de Edgar Guest é a melhor do mundo, e mesmo que você fale que o trabalho de Zilpha Katley Snyder é incrivelmente tedioso. Vou te amar se você abandonar o theremin (Theremin é um instrumento musical que não precisa de contato manual para produzir música) e escolher a gaita, e te amarei se você doar seus micos ao zoológico e suas rãs-árvore para M. Eu te amarei como a estrela-do-mar ama o recife de corais, e como as trepadeiras amam as árvores, até mesmo se os oceanos virarem poeira e as árvores caírem na floresta sem que ninguém as ouça. Te amarei como o molho pesto ama o macarrão fetuccini, como a raiz de cavalo ama a província do Miyagi, como a Tempura ama o Ikura e o queijo Pepperoni ama a pizza. Te amarei como o manati (ou peixe boi) ama a cabeça da alface e como as manchas escuras amam os leopardos, como as sanguessugas amam o tornozelo de uma ave perneta e como um cadáver ama o bico do urubu. Te amarei como o médico ama seu paciente mais grave, e como um lago ama os nadadores sedentos. Te amarei como a barba ama o queixo, e as migalhas amam a barba, e o guardanapo umedecido ama as migalhas, e os documentos preciosos amam a umidade, e o olho piscante do leitor ama a impressão manchada do documento, e as lágrimas de tristeza amam o olho a piscar, fazendo o leitor interpretar mal o que está escrito. Te amarei como o iceberg ama o navio, e os passageiros amam o bote salva-vidas, e o bote salva-vidas ama os dentes da baleia, e a baleia ama o sabor dos uniformes navais. Te amarei como uma criança ama ouvir a conversa dos seus pais, e os pais amam o som de suas próprias vozes discutindo, e como a caneta ama escrever todas as palavras destas vozes em um caderno. Eu te amarei como uma telha ama cair de uma casa num dia de ventania e golpear o queixo de uma pessoa irritante, e como um forno ama dar defeito enquanto está assando um peru. Te amarei como um avião ama cair do céu azul claro e como uma escada rolante ama emaranhar lenços caros em seus mecanismos. Te amarei como a toalha de papel molhada ama ser amassada em uma bola e lançada em um teto de banheiro, e  como uma borracha ama deixar pó no penteado de pessoas que falam muito. Te amarei como uma abotoadura ama cair de sua camisa e explorar a festa por si só e como um par de luvas brancas ama passar despercebido delicadamente sobre o ponche. Te amarei como um táxi ama a lama e como uma biblioteca ama o tic-tac paciente de um relógio. Te amarei como um ladrão ama uma galeria, e como um corvo ama um assassinato, como uma nuvem ama morcegos e uma cadeia ama montanhas. Te amarei como a desgraça ama os órfãos, como o fogo ama os inocentes e como a justiça ama sentar e assistir enquanto tudo vai mal. Te amarei como um campo de batalha ama homens jovens, e como a menta ama sua alergia, e te amarei como a casca de banana ama o sapato de um homem que acaba de ser golpeado por uma telha que cai de uma casa. Te amarei como uma Corporação pelo Salvamento das Chamas ama entrar às pressas em edifícios em chamas, e como os edifícios em chamas amam persegui-los afora, e como o paraquedas ama deixar um balão, e como o operador de balões ama persegui-lo logo após. Te amarei como um punhal ama uma pessoa por trás, e como um certo empregado de um estabelecimento de limpeza a seco ama ficar acordado até tarde com um par de binóculos, vigiando uma fábrica de punhais na esperança de pegar um assaltante, e como uma assaltante ama se mover furtivamente atrás de pessoas com binóculos, enquanto se dá conta de repente que deixou o punhal dela em casa. Eu te amarei como uma gaveta ama um compartimento secreto, e um compartimento secreto ama um segredo, e como um segredo ama fazer uma pessoa ofegar, e como uma pessoa ofegante ama um copo de conhaque para acalmar os nervos, e como um copo de conhaque ama se quebrar no chão, e como o barulho de um copo a quebrar ama fazer outra pessoa ofegar, e como outra pessoa ofegando ama uma escrivaninha por perto para se apoiar, e apoiando-se na escrivaninha aperta uma alavanca que ama abrir uma gaveta que revela um compartimento secreto. Te amarei até que todo compartimento semelhante seja descoberto e aberto, e até todos os segredos ofegarem o mundo. Te amarei até que todos os códigos e corações estejam quebrados e até que todos os anagramas sejam ordenados. Te amarei até que todo incêndio seja extinguido e até que toda casa seja reconstruída mais bela e cheia de bosques, e até que todo criminoso seja algemado pelo policial mais preguiçoso. Te amarei até que M. comece a odiar cobras e J. comece a detestar gramática, e te amarei até que C. perceba que S. não é merecedor do seu amor e N. perceba que ele não merece V. Eu te amarei até que os passarinhos odeiem os ninhos, e as lagartas odeiem a maçã, e até que a maçã odeie a árvore e a árvore odeie o ninho, e até que o pássaro odeie a árvore e a maçã odeie o ninho, embora eu não posso imaginar que a última ocorra, não importa de que maneira eu tente. Te amarei à medida que nós envelhecermos, o que há pouco aconteceu, e aconteceu novamente, e aconteceu vários dias atrás, continuamente, e vários anos antes disso, e continuará acontecendo enquanto os ponteiros dos relógios girarem e as páginas dos calendários marcarem a passagem do tempo, exceto os relógios que as pessoas têm perdido e os calendários que as pessoas esqueceram de colocar um uma área visível. Te amarei à medida que nós nos acharmos cada vez mais e mais longe um do outro. Te amarei até que as chances de nos colidirmos um com o outro passe de poucas para zero, e até que sua face enevoada se distancie da minha memória. Te amarei não importa onde você for e quem você vê, não importa os lugares que você evita e quem você não vê, e não importa quem lhe vê evitando os lugares. Te amarei não importa o que lhe acontece, e não importa como descubro o que acontece a você, nem o que acontece a mim quando descubro, e nem como sou descoberto depois que o que acontece a mim acontecer a mim quando estou descobrindo o que acontece a você. Te amarei se você não se casar comigo. Te amarei se você casar com outra pessoa: seu coadjuvante, talvez, ou Y., ou até mesmo O., ou algum Z. por causa de A., ou mesmo R. --- embora eu acredite que isto será algum tempo antes de ser permitido o casamento entre duas mulheres--- e  te amarei se você tiver uma criança, e se você tiver duas crianças, ou três, ou até mais, embora eu pessoalmente pense que três é o bastante, e te amarei se você nunca se casar e nunca tiver uma criança, e passar seus anos desejando ter se casado comigo afinal de contas, e eu tenho que dizer que eu prefiro este enredo que todos os outros que mencionei. Que, Beatrice, é como eu te amarei até mesmo quando o mundo for caminhando para o mal.
Pergunta dez: Não.
Pergunta onze: Tudo. A carta pode estar codificada e uma palavra pode estar codificada. A performance teatral pode estar codificada, e há tempos que parece que o mundo inteiro está em código. Alguns acreditam que o mundo pode ser decodificado lendo um jornal. Mas no meu caso, a única coisa que fazia sentido no mundo era você, e sem você o mundo parecerá tão falsificado e trágico quanto uma máquina de escrever com defeito9.
Pergunta doze: veja a resposta da questão cinco. Kit, Jacques e eu.
Pergunta treze: "Sinto muito, eu não posso responder esta pergunta". Sinto sua falta. Quem sabe quando verei você?
P.S.: Você está certa de que seu coadjuvante é mesmo um de nós?
Lemony Snicket

O Cacho de Cabelo

Nota1: A mensagem do P.S. estava em código Sebald, mas pelos motivos de que já lhe falei (ring em inglês pode significar tanto anel como o toque de um sino, e na carta significava os dois) não pude deixar a carta em código.
Nota2: a palavra defeito9 estava no livro com o nove mesmo. Não foi um erro. Da mesma maneira, a resposta da questão treze estava realmente em aspas.

28/11/2009

Tradução do The Beatrice Letters, Carta nº 8

BEATRICE BAUDELAIRE

A

Véspera do Dia da Vitória
Caro Sr.,

     Escrevo para maiores informações sobre o problema que discutimos previamente este ano. Estou na minha Aula de Escrita de Cartas de Negócios, que é ensinada por um homem de pé chato tão triste e “sem-noção” que ele certamente me dará um A neste trabalho sem ler nada, a não ser a primeira frase de cada parágrafo. Eu poderia dizer qualquer coisa aqui. Por exemplo: “Baticeer” é uma pessoa que treina morcegos. Aprendi isso em um poema que vi você ler.
     Após cuidadosa consideração, estou feliz em anexar a seguinte informação. Era eu, batendo a na porta do seu escritório ontem à noite. Eu sei que você estava lá, porque lhe segui da biblioteca, onde você ficou por quase uma hora observando uma caixa de vidro que continha velhos documentos que estavam sendo exibidos na exposição “Poesia Teatral: Sonetos por Atores e Atrizes”. Depois, você sentou em um banco no parque, examinando um anel colocado numa superfície de madeira por alguém, cuidadoso como se fosse de vidro, antes de passear pelas margens de um lago próximo, antes de repentinamente fazer uma corrida louca até o Doldrum Drive, onde um ônibus estava quase saindo. Você pegou o ônibus, enquanto eu parava um carro para te seguir pelas ruas cansativas do bairro entediante no qual o seu deprimente edifício se encontra. Enquanto eu tentava forçar a fechadura da porta da frente, você já estava muitos andares acima de mim, mas eu pude ouvir você respirando por causa da subida assim que alcancei sua porta. Porque você não respondeu? Porque você não responde nenhuma das minhas perguntas? Eu preciso ter pelo menos 12 delas respondidas.
     Enfim, por favor não hesite em me contatar o quão cedo for conveniente para o senhor. Uma única carta pode mudar tudo. Os três Baudelaires podem ter ido há muito tempo, mas há uma quarta Baudelaire aqui, esperando que você possa desatar o “Meu Nó Silencioso” e me ajudar a encontrar o fim de uma história que começou com você – na mesma sala onde estou agora, prestes a entregar esta carta ao meu instrutor de escrita de cartas de negócios para que ele possa dar a nota e colocá-la no correio.

Sua, em negócios,
Beatrice Baudelaire.

19/10/2009

Tradução do The Beatrice Letters carta nº 7

Beatrice,
Esta carta foi erroneamente entregue a mim. Claramente, os gatos precisam de mais treino! Espero que você esteja bem. R.


LEMONY SNICKET

2 semanas após minha última carta
Minha querida Beatrice,

    Repórteres estão vindo de toda parte de Tedia até Paltryville, pois as performances de “My Silence Knot” (meu nó silencioso) estão esplêndidas e sua performance como “Baticeer” foi a melhor do show, superando até a performance do homem-das-montanhas. Mais importante, repórteres estão vindo de toda parte de T até P., pois você reuniu quase todas as evidências que nós precisamos. Permita-me parabenizar você e seu coadjuvante pela performance na excursão.
    Mas devo admitir que sinto terrivelmente sua falta. O mundo é muito quieto sem você por perto. Vou dormir cedo e acordo tarde, e sinto como se mal tivesse dormido, provavelmente porque tenho lido quase todo o tempo. Me arrasto para minha mesa todas as manhãs, mas não consigo nem mesmo argumentar com E. ou com G., e à tarde não consigo me lembrar de chamar L. de “O.” ou de chamar O. de “L.”, e à noite eu jogo cartas, mas minha mente nunca está no jogo e sim em você, então R. tem ganhado grande parte da minha coleção de canetas. Com você longe é como se todas as letras da minha vida estivessem misturadas num anagrama, e eu não serei capaz de colocá-las em ordem até que você volte. Nunca mais quero me separar de você, Beatrice, exceto quando for ao banheiro, no trabalho, e quando um de nós quiser ver um filme que o outro não queira ver.
    Fiz uma reserva no nosso lugar usual para uma “root beer floats” depois da sua performance de chegada. Há algo que quero muito te perguntar, mas não perguntarei isso numa carta – particularmente uma carta que vou tentar entregar à noite, por meio de um roedor voador. Enquanto isso, incluí alguns sonetos que escrevi sobre as noites que passamos juntos.
Sinto sua falta. Vejo você em algumas semanas.

LEMONY SNICKET

Tradução do The Beatrice Letters carta nº 6

4 horas da tarde
Querido Sr,

     Finalmente te encontrei – mas você não está aqui. Os pastores me contaram que um homem com as mesmas características que você (altura média, não careca, totalmente vestido e com as iniciais L.S.) morou nas montanhas por alguns meses como um “homem-brae’’, umas frase que aqui significa “um homem que mora nas montanhas”. Eles disseram que você raramente se aventurava a sair de uma pequena caverna – “como se estivesse esperando por alguém,” disse o mais velho dos pastores, enquanto tocava seu sino para chamar as ovelhas e me olhava muito cuidadosamente nos olhos. Eu troquei um anel que estava usando, gravado com a inicial de uma pessoa que eu acho que você conheceu, por uma visita à caverna. Não sei o que terei para negociar em troca de ter esta carta enviada.
     Sua caverna é um lugar miseravelmente sem corrente de ar, infestada de morcegos e decorada com um papel de parede horroroso. Seja lá o que for que você tenha trazido aqui, levou consigo quando partiu – a única coisa que achei aqui foi esse pedaço de papel no qual estou escrevendo esta carta. No fim da folha há uma única letra, a qual me informaram ser sua caligrafia/letra – outra letra para a minha coleção, incluindo as letras das suas iniciais, as cartas que encontrei no seu escritório, e as cartas que te escrevo, sempre sem saber se você as recebe.
     Esta tem sido uma longa e difícil jornada. Exceto pela baleia, tenho viajado sozinha e, agora, depois de seguir o caminho que você deixou para mim em seu escritório – se aquele for mesmo o seu escritório, e se você tiver deixado aquele caminho mesmo para mim, e se você for quem acho que é – tudo o que consegui ficar sabendo foi o que você disse quando deixou esta caverna numa Quarta-Feira à noite, assim que a estação da chuva de granizo começou.
     “Estou pronto para uma ‘root beer float”, foi o que você disse, e eu estou também. Eu voltarei para a cidade, onde me disseram que fazem as melhores “root beer floats” numa certa loja, embora eu tenha esquecido o nome, a localização e a lista de preços da loja em questão. E é por isso que é tão importante pra mim que eu encontre minha família. Com o tempo, muitas memórias desaparecem. Violet amarrando seu cabelo em uma fita para mantê-lo longe dos olhos, Klaus lendo um livro através de seus óculos, Sunny aparecendo na rádio para discutir suas receitas – não quero que essas sejam minhas únicas lembranças das três pessoas mais importantes da minha vida. Por favor, senhor, contate-me a qualquer hora, dia ou noite, enquanto sigo meu caminho para onde, eu espero, o senhor está se deliciando com um refresco.

Beatrice Baudelaire.
K

Tradução do The Beatrice Letters, carta nº 5

LEMONY SNICKET
Aniversário de Scriabin
Querida Beatrice,

     Enfim, tenho um tempinho para te escrever, já que Eleanora Poe não está no escritório e, portanto, não está “olhando por cima do meu ombro”. Quando eu disse ao diretor que estava interessado em retórica e que pensei que talvez gostaria de trabalhar voluntariamente no jornal, nunca me ocorreu que eu poderia ser o revisor gramatical de obituários—e agora, que me vejo estrelando essa manchete desafortunada, percebi como eu gostaria de ter te seguido na carreira teatral.
     Madame Poe me disse para nunca revelar qualquer informação que eu encontrasse antes da mesma ser publicada no Pundonor Diário, mas não posso ajudar em nada além de compartilhar o obituário que estava me esperando em minha mesa hoje de manhã, embaixo do peso de papel do Lago Lacrimoso que I. me deu de presente de formatura.
     “A Duquesa de Winnipeg está morta” é o que dizia o obituário. Uma carta pode mudar tudo.
     Pobre R.! Não posso imaginar o quão triste ela está por perder sua mãe. Ela é uma órfã agora—e a nova Duquesa de Winnipeg, com todos os privilégios e perigos de tal posição. Isso também significa que J. será transferido(a) para a Coluna Econômica, o que significa que G., aquela garota tola, será a nova editora de moda, o que significa que a posição de crítico teatral provavelmente será dada a mim. Como se percebe, os próximos meses serão difíceis para todos nós.
     Eu sei que em tempos como esse nós deveríamos estar pensando em nossa organização, e no que nós podemos fazer para proteger nossos voluntários, mas só consigo pensar em você. Teremos que ser mais cuidadosos durante nossas tardes juntos. Devemos ficar afastados e de janelas abertas, mesmo quando estivermos do lado de fora, e devemos checar cuidadosamente em baixo das camas, mesmo quando não houver ninguém dormindo nelas. Você deve evitar comidas suspeitas nos restaurantes, particularmente se forem a especialidade da casa, e eu deverei sentar somente em alguns bancos do parque quando resolver ler os sonetos que você me manda.
     Quando as pessoas estiverem lhe aplaudindo ao final da performance de sexta, estarei sentado na primeira fileira, mas não tente falar comigo. Assim que os aplausos terminarem, deixe um de seus palitos de fósforo no palco. Esse será o seu sinal para mim de que é seguro nos encontrarmos no lugar de sempre para a nossa “roat beer float” da meia noite. Tenho certeza de que a apresentação correrá bem, mas espero que você nunca mais precise usar aquela fantasia de borboleta de novo.
     Sinto sua falta. Vejo você em alguns dias.

Lemony Snicket.




O Palito de Fósforo

Tradução do The Beatrice Letters, carta nº 4

28 de Fevereiro

Querido Senhor,

     Estou escrevendo isso na máquina de escrever do seu pequeno e empoeirado escritório, no 13º andar de um dos nove edifícios mais sombrios da cidade. É uma sala monótona, mas tem uma vista interessante. Se eu me recostar nessa cadeira—sua cadeira, se eu não estiver enganada— consigo ver um lote vazio no qual algumas plantas exóticas brotaram. Levam anos para a terra se recuperar de um incêndio, mas mesmo nas cinzas mais escuras eventualmente alguma coisa pode crescer.
     Você não está aqui, mas eu acho que sei onde estás graças a algumas pistas que descobri. Por exemplo, pregado na parede direita há um mapa enorme, com um caminho marcado com linha e alfinetes. Adicionalmente, há notas indicando hotéis, lugares escondidos, escritórios de lugares que alugam carros, sinagogas, bibliotecas públicas, bibliotecas particulares, restaurantes, cafés, buffets com tudo o que se pode comer e cinemas, cada lugar marcado com uma data e um horário. Ou sou uma detetive muito boa, ou você é péssimo em esconder coisas—ou, talvez, queira que eu vá onde você está.
     A caixa de madeira na qual se lê “cartas” em cima da sua mesa está cheia de cartas. Mas todas elas estão misturadas, e não consigo determinar o que elas diriam se as colocasse na ordem apropriada. A única carta faltando é a que te mandei. Ou ela nunca chegou, ou você a levou junto com você.
     Por favor, Sr., preciso falar contigo. Tenho ouvido rumores de sua perseguição e tenho dúzias de perguntas assim como uma ou duas críticas construtivas. Estou partindo dessa cidade, apenas algumas horas após tê-la visto pela primeira vez, para seguir seu caminho de linha e alfinetes. Estou indo na direção das montanhas, para que eu possa encontrar, depois de todos esses anos, os três irmãos que são a única família que eu tenho. Sem Violet, Klaus e Sunny, sou uma órfã—uma órfã que vai deixar essa carta aqui, no caso de nos desencontrarmos.

Beatrice Baudelaire.


PS. Este peso de papel é muito bonito, no entanto não posso dizer se representa uma cobra, um verme ou uma serpente elétrica.




O Peso de Papel

12/10/2009

Tradução do The Beatrice Letters, carta nº 3


Ano da Cobra
Querida Beatrice,

     Estou te escrevendo esta carta, como sempre, sem nenhuma razão especial, e vou tentar fazer R. entrega-la para que você possa lê-la antes de nos encontrarmos para a prática de esgrima. É fácil escrever cartas durante a aula de Código, enquanto o tedioso e “pé-chato” instrutor simplesmente murmura as mesmas lições sobre cartas de negócios. Ele provavelmente ficará zumbindo assim pelos muitos anos que estão por vir.
     Enquanto isso, pessoas sortudas como você estão na aula de teatro. Posso ouvir você dando voltas no telhado de madeira que range acima de mim.
  Você e R. estão provavelmente aprendendo a disfarçar mensagens codificadas em diálogos melodramáticos enquanto escrevo isso. Só conheço um outro estudante nessa classe: O., que não é nada mais do que irritante. Enquanto escrevo isso, ele está enchendo seu caderno com anagramas de palavras obscenas. Estou tentado dizer pra ele que não existe nada parecido com um “vipper”molhado permanentemente, mas depois do incidente com a garrafa de tinta e a root beer floats, acho que é melhor gastar o meu tempo no “My scilence Knot” quando aquele tolo levantar sua cara feia com uma única sombrancelha.
     Estou ligeiramente empolgado com a excursão que está por vir. Sei que você e R. serão parceiras de alpinismo, mas espero que junte-se a mim algumas horas explorando cavernas. Minha irmã me disse que há morcegos para serem encontrados lá, e eu adoraria passar algum tempo com uma certa “baticeer”(treinadora de morcegos) . Não importa onde estivermos—muito longe nas montanhas ou lá embaixo na cafeteria, nadando no oceano ou nos escondendo em carros— gosto de estar com você, e sinto a sua falta quando não estou.
     Sinto sua falta. Te vejo em algumas horas.

Lemony Snicket

Nota:
S.,
Como você deve ter reparado, há algumas palavras no texto que eu não consegui traduzir. Mas considere que eu não tenho a ajuda de I. neste momento e não posso pedir auxílio a M. porque ela ainda está lendo o 10º livro.
Abraços,
Isadora Viena Velse
P.S.: “baticeer”além de treinadora de morcegos é um anagrama de Beatrice:

B E A T R I C E
B A T I C E E R

08/10/2009

Carta para S.

S.,

Achei uma ilustração interessante... Supostamente mostra Jacques e Quigley na Sala dos Répteis do Tio Monty.Tire suas próprias conclusões, mas me parece que não é uma ilustração do Brett Helquist.

"Aqui o Mundo é Sereno"(ou, pelo menos, quase sempre)

Sua amiga,

Isadora Viena Velse (mais conhecida como V.)

06/10/2009

Tradução do The Beatrice Letters, Carta nº 2

Quarta-Feira
Querido Senhor,

      Não tenho como saber se essa carta vai chegar a você, já que a distância entre nós é tão grande e tão dificultosa. Este pequeno pedaço de papel deve cruzar montanhas e cafeterias, em porta-malas de automóveis e em bolsos impermeáveis de nadadores de longa distância, dentro de envelopes e dobrado dentro de cisnes, a fim de tomar o caminho do seu pequeno e empoeirado escritório no décimo terceiro andar de um dos nove edifícios mais sombrios da cidade. Tudo o que eu posso fazer é esperar pelo melhor, mas esperar pelo melhor, assim como esperar que um morcego obedeça suas ordens, quase sempre leva ao desapontamento. E mesmo se essa carta chegar até você, não tenho certeza de que chegará à pessoa certa. Talvez você não seja quem eu penso que é-–existem muitas pessoas, afinal, com as mesmas inicias que alguém, assim como há provavelmente três ou, no mínimo, uma outra pessoa com as mesmas iniciais que eu.     Talvez você também pense que eu sou outra pessoa, e faça uma anotação suspeita na margem, me acusando de ser uma vilã ou coisa parecida.
     Por anos e permaneci quieta, sentindo todas  minhas palavras se contorcendo e se emaranhando dentro de mim como uma linha, enquanto procurava desesperadamente por alguém que pudesse me auxiliar. Agora , devo desatar “Meu Nó Silencioso” e escrever para um homem que nunca vi, mesmo que ele não seja o homem que procuro, e mesmo que eu esteja procurando pelo homem certo no lugar errado, ou pelo homem errado no lugar certo, ou ambos, ou nenhum, ou ambos ambos e nenhum.
     Pelo que me falaram, você pode ser a única pessoa capaz de me ajudar. Me falaram que você é um tipo de detetive—ou, pelo menos, me disseram que a palavra “detetive” está pintada na porta do seu escritório. Me falaram que você guarda para tudo para si e raramente fala com alguém, e nas raras ocasiões em que se envolve numa conversa, você nunca discute seu passado, mas pode ser encontrado ocasionalmente em uma livraria, folheando do começo ao fim as seções de crítica teatral em jornais velhos. No entanto, espero que você discuta seu passado comigo. Espero que me conte uma história que começou há muitos anos atrás, no que me falaram ser uma espécie de sala de aula. Espero que você seja quem penso que é, e espero que você ainda esteja no seu escritório, e que essa carta chegue a você. Resumindo, espero pelo melhor.
   Meu nome é Beatrice Baudelaire. Estou procurando pela minha família—Violet Baudelaire, Klaus Baudelaire e Sunny Baudelaire. Por favor, me contate a qualquer hora, dia ou noite.

Beatrice Baudelaire

PS. Dia seria melhor, pois meu horário de dormir é cedo.

Nota1.: “Meu Nó Silencioso” em inglês é "My Silence Knot", um anagrama de Lemony Snicket e também o título de um soneto no final do livro.
Nota2.: Havia uma anotação suspeita na margem: E.?

05/10/2009

Tradução do The Beatrice Letters, Carta nº 1

AS CARTAS DE BEATRICE
Lemony Snicket


(SUSPEITOSAMENTE LIGADO AO LIVRO DÉCIMO TERCEIRO)

LEMONY SNICKET
ESTUDANTE DE RETÓRICA

Sinto muito se te envergonhei na frente de seus amigos. Eu só queria falar com você. Você sempre pareceu uma pessoa interessante, e eu gostei muito do seu desempenho oral naquela história do soneto. Se você quiser passar o intervalo da tarde comigo, encontre-me fora do Portão Leste, por perto há um bom Café que serve root beer floats. Serei o garoto de onze anos vestindo uma gravata verde e um broche de nossa organização.

Portão Leste E Café

Se não há nada lá fora, o que foi aquele Barulho?

Minha foto
Somos apenas pesquisadores em busca de compreender melhor o caso Baudelaire e resolver os mistérios de C.S.C. Todos os membros apresentem seus livros de Lugar-Comum."Mas por que exatamente estamos fazendo isso?" Siga-nos no twitter: @sociedade_desv